em palavras vazias
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Aosta, 2005
olhar naufragado termina hoje.
agradeço as visitas.
é tudo.

Varese, 2006
já te aconteceu estar num lugar e existires longe? o pensamento é uma besta selvagem que te consome.
enquadras o futuro no retrato e disparas. nada mais importa.
vagueias perdido enquanto os sons te conduzem.
aqui.

Abrantes, 2006
existem lugares adiados.
é difícil escrever as cidades cheias de casas com ruas desertas de gente, ou serão as cidades cheias de ruas com casas desertas de gente?
existem lugares perdidos.
existes tu.
existo eu.
existimos aqui.
suspensos.

Cabul, 2006
esperamos o tempo.
a vida.
as promessas.
[não existe esquecimento. apenas olhares perdidos por realizar. no tempo.]

Cabul, 2006
caminhas. extasiado.
[existe um mundo para tornar melhor. transformar. sonhar. lutar. ganhar. perder. vens? ficas?]

Cabul, 2006
afastar ou aproximar. perspectiva do olhar.
só ou acompanhado. encontro com a realidade.
regressas a casa.
sim. regressas a casa.
agora.
[existem realidades para uma única verdade. ou não?]

Cabul, 2006
não existe tempo virtual.
existe o tempo. existes tu.
existimos neste buraco de verme. viajas.
devagar.
[as memórias podem ser uma espécie de wormhole de schwarzschild a que não consegues escapar?]

Cabul, 2006
horizonte.
a distância que a vista alcança até se perder.
[o abandono pode ser perder-se na memória. do mundo?]

Cabul, 2006
assistes à vida que passa.
esperas.
espero contigo.
[tens paredes brancas no olhar. desenhas os dias?]

Varese, 2006
existe outra manhã. com ela a aventura do recomeço.
galopar a dor. inventar o dia.
[cada dia. todos os dias. até ao dia.]

Florença, 2006 (Fotografia de Susana)
reflexos.
palavras.
casas.
olhares.
pontes.
silêncio.
[às vezes o pensamento voa e regressas a casa.
tens a certeza.]

Cabul, 2005
em todos os lugares existem semi-deuses.
essa gentinha está sempre pronta a escutar-se.
agora diz-me tu: um semi-deus pode ser um contador de histórias?
o quê?
a relação com a fotografia?
não tem nenhuma, mas ainda não se percebeu que me é absolutamente indiferente?
o quê? arte?
[não sei, mas passo a explicar]
( ... )
[espero em todos os lugares que o tempo passe e eu com ele.]

Cabul, 2005
um olhar.
[quanto me é grato o silêncio]

Cabul, 2005
percorres o espaço onde o céu abraça a terra.
repousas.
sim.
no abraço.
[...
escolher o tempo e as palavras no abraço do coração
o meu horizonte és tu
...]
(texto e fotografia de jorge)

Cabul, 2005
olho-te.
verde, verde, verde.
o pensamento é um cavalo alado que se junta ao coração.
subitamente sereno.
[não precisamos de palavras. às vezes]

Cabul, 2005
esperamos.
o mesmo olhar perdido.
[o coração repousa longe]

Milão, 2005
às vezes és asa. no horizonte do olhar.
[o meu pequeno mundo]

Veneza, 2003
pouco mais há a dizer.
amanheceu e a praça continua deserta
bem sei que se encherá depois de partir. são assim as cidades assaltadas por turistas ocasionais: uma inundação de ansiedade e pressa.
[não haverá redenção nas palavras]

Covão da Ametade, 2004
ainda falta
dizer: que os rios
se entregam ao mar. que percorro
os traços e as palavras
devagar.
ainda a promessa
onde tudo se lê e nada está escrito.
[ainda o cansaço das palavras no silêncio do olhar]

Busto Arsizio, 2005
desenhas o azul e todos os caminhos que o podem percorrer. julgas-te um artista?
[confúcio] eu não procuro saber as respostas, procuro compreender as perguntas.

Busto Arsizio, 2005
armas-te de pequenas palavras e ódios. construções iguais na representação de uma importância vazia.
[olhas indiferente e sorris. e a ternura?]

Busto Arsizio, 2005
rodas.
giras sem cessar em viagens sem destino.
perco-me neste olhar e rodo contigo.
quando me fotografaste, o passado ressurgiu, comprimido, no rectângulo cinzento da moldura.
era outra vez novembro. viajavas de novo nas margens do rio pó, mas podia ser outro qualquer rio ou lugar.
percorrias o tempo e com ele as palavras? os silêncios? os olhares? os sorrisos? os gesto?
pouco importa. viajas de novo perdido.
permanece a certeza de que existimos.
também aqui.

Busto Arsizio, 2005
novembro
é um estilete que te penetra o coração.
[também o olhar é um lugar inóspito de intranquilidade]

Busto Arsizio, 2005
recordo-me.
pesavam-me as palavras.
pesava-me o corpo, o sangue. ouvia-o correr nas veias devagar.
o cansaço das ideias gastas dos heróis de pacotilha.
olha-me.
estamos aqui.
iguais.
[talvez pudesses dizer-me que cada Homem é um mundo]

Siena, 2004
perdes-te de novo neste olhar.
quero que saibas: o duomo continua incompleto, passados todos estes séculos. existe o espaço e as fundações. continuam à espera, da vontade. permanece a promessa.
à frente uma torre alta como tu. mais além o sonho.
uma promessa por cumprir.
são assim as memórias. amontoados inúteis
de palavras?
de silêncios?
de olhares?
perdidos no tempo.
continuas a dizer que quase todas as operações de paciência são arriscadas.
agora.

Bolonha, 2004
sinto o caminho encher-se de vazio
a distância encher-se de distância
e de pedras
imagino o olhar
perdido
no fim da linha.
[a distância pode ser uma pedra que nos habita a boca?]

Riomaggiore, 2004
casas. tenho pensado casas.
sobre
rios,
ruas
falésias.
tenho pensado cores, cheiros e ruídos.
[as casas são lugares inóspitos sem gente]
no azul do mar
sobre a falésia encontras a tua tristeza
indeterminada como a saudade.
[esta tristeza e esta saudade. inúteis]
há uma razão
neste silêncio pressentido
porque se inflama em mim
o extenuado lume
da espera.
[a hemorragia irremediável do silêncio]
casas. tenho pensado casas
cores quentes
luz indirecta.
e retomo a respiração.
[a manhã é a minha única certeza. agora.]

Oberammergau, 2005
o desconhecimento anda de mãos dadas com o preconceito.
pinta-me com as cores que desejares. atrás destas paredes existo eu.
inacessível.

Cacilhas, 2005
tantas vezes olhas em silêncio e sorris. com o tempo ganha-se treino e encontra-se a ruina.
[ainda os heróis e os eruditos. ainda o cansaço]